Bahia/BRB: acarajé quente, que faz escorrer lágrimas

 Compliance Zero aproxima investigação do contrato bilionário do BRB na Bahia e joga luz em Flávia Arruda, hoje Flávia Peres

Ainda casada com José Roberto Arruda, preso no escândalo “Caixa de Pandora”, e trocando “figurinhas” com Augusto Lima, o banqueiro sócio de Daniel Vorcaro, a hoje Flávia Peres pode ser o elo entre o Banco de Brasília, BRB, e o Tribunal de Justiça da Bahia, segundo os investigadores.

Mais uma vez, o nome de Rui Costa, então ministro da Casa Civil no governo petista, aparece nas investigações com estreitas ligações com o banqueiro Augusto Lima, atualmente casado com Flávia Peres.

A presença de Flávia Peres nesse ambiente também desperta atenção pela influência política que acumulou entre Brasília e Salvador. Ex-deputada federal pelo Distrito Federal, ela construiu relações em diferentes campos do poder, transitando com facilidade entre lideranças políticas de correntes distintas. Ao longo dos anos em que o BRB ampliou sua atuação para além das fronteiras do Distrito Federal, Flávia circulou em ambientes que reuniam agentes políticos, empresários e operadores do mercado financeiro. Nos bastidores, seu nome sempre foi associado à capacidade de abrir portas e aproximar interlocutores.

A nona fase da Operação Compliance Zero lançou luz sobre um dos movimentos mais estratégicos realizados pelo Banco de Brasília nos últimos anos: a entrada do BRB no Tribunal de Justiça da Bahia. O que até então era tratado como uma expansão institucional do banco passou a integrar o campo de visão da Polícia Federal, que agora busca identificar quem atuou nos bastidores da operação e quais interesses cercaram a aproximação entre o banco estatal e o Judiciário baiano.

No centro da investigação aparece o publicitário Guilherme Henrique Sodré Martins, o Guiga Sodré. Segundo a linha apurada pela Polícia Federal, ele teria desempenhado papel relevante na construção de pontes entre empresários ligados ao Banco Master, integrantes do entorno político do senador Jaques Wagner e agentes com influência em ambientes institucionais. Nos bastidores, Guiga é apontado como personagem que ajudou a abrir caminho para a chegada do BRB ao Tribunal de Justiça da Bahia.

O contrato firmado em 2021 representou um passo importante na estratégia de expansão do Banco de Brasília para fora do Distrito Federal. Na época, a instituição buscava ampliar sua presença nacional e conquistar novas folhas de pagamento, novos clientes e novos mercados. O Tribunal de Justiça da Bahia tornou-se uma das principais vitrines desse projeto de crescimento.

Agora, porém, a Polícia Federal procura esclarecer se a construção desse caminho ocorreu exclusivamente dentro dos parâmetros institucionais ou se houve atuação de intermediários utilizando relações políticas e pessoais para facilitar negociações de interesse do sistema financeiro. A investigação ainda não aponta ilegalidade no contrato firmado pelo BRB. O foco está concentrado nas circunstâncias que cercaram a aproximação entre os personagens envolvidos.

As apurações indicam, ainda, que, após a entrada do BRB no ambiente do tribunal baiano, o Banco Master também passou a operar naquele universo por meio da oferta de produtos financeiros destinados a magistrados, servidores e integrantes da estrutura do Judiciário. É justamente essa sequência de acontecimentos que despertou o interesse dos investigadores.

Outro ponto que chama atenção é que a investigação não está restrita às relações empresariais. Os documentos analisados pela Polícia Federal apontam para a existência de contatos que alcançam gabinetes políticos e estruturas de influência em Brasília. A suspeita é que determinados operadores tenham atuado simultaneamente nos ambientes financeiro, empresarial e político, construindo conexões capazes de favorecer interesses econômicos específicos.

A operação também examina negociações envolvendo um apartamento de alto padrão avaliado em R$ 2,45 milhões. Para os investigadores, algumas mensagens trocadas entre os envolvidos podem indicar o uso de linguagem cifrada para tratar da operação. Esse material integra o conjunto de elementos que está sendo analisado pela Polícia Federal e pelo Supremo Tribunal Federal.

O avanço da Compliance Zero demonstra que as investigações deixaram de olhar apenas para operações bancárias isoladas. O foco passou a alcançar a rede de relações que permitiu a expansão de negócios bilionários envolvendo instituições financeiras, agentes políticos e estruturas públicas. Nesse cenário, o contrato do BRB com o Tribunal de Justiça da Bahia surge como uma das peças centrais do quebra-cabeça que a Polícia Federal tenta montar.

Os fatos permanecem sob investigação e ainda serão submetidos ao contraditório e à ampla defesa. O que já se sabe é que a Compliance Zero avança cada vez mais na direção das engrenagens que movimentaram negócios de grande porte envolvendo o Banco de Brasília, o Banco Master e personagens com trânsito nos centros de poder do país.

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